João Gilberto e outras erdas quaisquer

João Gilberto, amado mestre, grande músico brasileiro. Fundador do samba sessions, subgênero derivado do samba com forte influência do bebop e cool jazz, comumente chamado posteriormente de Bossa Nova. Este grande fruto da genialidade de grandes nomes como Nara Leão, Vinícius “Poetinha” de Moraes, Antonio Carlos “Maestro” Jobim, Baden Powell e o nosso amado mestre: João Gilberto.
Nascido no final da década de 50, ganhou luz esse que seria um dos movimentos mais influentes da história da música popular brasileira. Oriundo das zonas de classe média da zona sul da Cidade Maravilhosa, começou num meio privilegiado entre universitários e rodas de personas culturalizadas. Em meados da década de 60 o movimento sofreu uma cisão ideológica potencializada por nomes como Edu Lobo e Marcos Valle, Dorival Caymmi e pelo Centro de Cultura Popular da UNE (União Nacional dos Estudantes). A partir daí, houve uma aproximação do fruto querido da música popular brasileira com uma visão popular e nacionalista, criticando sua influência jazzística norte americana a fim de aproximá-lo de compositores de morro como Cartola, Zé Ketti e Nelson Cavaquinho. Foi justamente nessa corrente que surgiu uma das melhores obras musicais da nossa cultura: “Os Afro-sambas (1966)” de Chico Buarque e Baden Powell.
Em 1965, em decorrência dessa forte corrente, a bossa nova teve seu fim transformando-se no que chamamos hoje de Mpb, que durou até o início da década de 80 quando surgiram as bandas de roquenrou pop renovadas como Blitz, 14 Bis, Barão Vermelho e Kid Abelha e os abóboras selvagens. O grande marco foi Elis Regina cantando Arrastão de Vinícius de Moraes e Edu Lobo no I Festival de Música Popular Brasileira, neste mesmo ano.
A Mpb nasceu então como uma segunda corrente da Bossa Nova, unindo sofisticação musical com fidelidade à música de raiz brasileira. Apoiada com o Golpe de 64, transformou-se numa grande frente cultural contra o regime militar; morfou em símbolo contra o regime estampando bandeiras de luta.
Em 2011, comemorando os 80 anos do nosso amado mestre com uma turnê que passaria por algumas regiões do país, somos bombardeados com preços abusivos e exorbitantes, irreais dentro da realidade do país em que o humor de cequecês tem fundamento. Em São Paulo os valores ficam entre R$500 e R$1000 e, os mais caros, entre R$600 e R$1400 no Rio de Janeiro e Brasília.
Hoje foi veiculado que a turnê foi cancelada, entre boatos de problemas de saúde e outros bla bla blás, o fato é que o valor foi abusivo e isso afastou muita gente. É o mesmo caso do show do Bob Dylan no Brasil em 2008 aonde o ingresso mais barato era de R$250 pra ficar atrás do pilar no fundo do salão de dentro do banheiro num box sem papel higiênico com o vaso sanitário entupido.
A falta de respeito e consideração com o povo brasileiro é tremenda, principalmente em se tratar de um ícone, papa de um movimento popular e genuinamente brasileiro numa época em que já “não há beleza, só tristeza e a melancolica que não sai de mim, não sai de mim, não sai”.
João Gilberto, se tinha a intenção de dar um presente para a nação com mais uma turnê especial, deveria fazê-lo com um valor condizente com a realidade do país, lugares não faltam, Sescs existem; quiçá em lugares públicos e de graça para a população, não apenas por respeito à toda a história do que ajudou a criar, como também em consideração e estima à geração atual que precisa subviver entre Maria Gadú, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Luan Santana e todos os demais ejos, cores, funks e outras erdas quaisquer.