Michel Teló: a próxima Xuxa Meneghel

Michel Teló é o nome da vez, indiscutivelmente. Quando apareceu hoje pela manhã na Forbes, o assunto ficou sério. O rapaz de 30 anos, tocador de sanfona (e digo isso em respeito aos verdadeiros sanfoneiros),  tem movimentado milhares de pessoas com seu único, e provalmente único mesmo futuramente, hit filho único Ai se eu te pego ao redor do globo. No total são mais de 94 milhões de visualizações no YouTube; pra dar noção da quantidade, vale a pena colocar o número completo: 94 000 000 de execuções nos ouvidos alheios.

A matéria fala sobre a dificuldade de “astros brasileiros” em terras internacionais. Calma: Latino, Claudinho e Buchecha, É o Tchan, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Pepê e Neném, DJ Marlboro e afins também já foram esse tipo de astro com aspas. Carmem Miranda foi uma que conseguiu criar furor por Hollywood nos anos 40 mostrando o que é que a baiana tinha na cabeça. Xuxa Meneghel (pronuncia-se “shoo-sha”), foi outra que tentou nos anos 90 mas não obteve êxito ao tentar conquistar a América para elevar seus potenciais ganhos para 70 milhões de dólares. Falam que a Xuxa, hoje, tornou-se aquém do que foi e atualmente tem um programa num horário esquecido em seu próprio país pois ninguém aguenta ver uma senhora de 40 anos dando pegadinhas em crianças. Ou seja, uma Hebe Camargo só que mais escrota e com voz irritante. Já os que conseguiram: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e, claro, Gisele Bundchen (que dispensa comentários e vale a imagem).

Mesmo com o que os jornais estrangeiros tem chamado de Booming Brazil (e não é de hoje), esse boom econômico que tem elevado o país para, até o momento, a 6º maior economia do mundo, passando o Reino Unido, o país ainda enfrenta dificuldades para conseguir emplacar um “astro” internacional. Aliás, possivelmente enfrentava.

Não se discute a qualidade inexistente de @Michel Teló, muito menos a melodia incrivelmente ridícula que viciou a maioria dos ruminantes que vêem música como produto de entretenimento, ou então, os incríveis riffs de sanfona. O rapaz viralizou o planeta como um câncer. Surgiram vídeos na internet com letras em inglês e espanhol, grego e até uma dupla que traduziu a música para polonês. Famosos ajudaram bastante a criar esse fenômeno comercial e de mau gosto musical: Rafael Nadal comemorando a conquista da Copa Davis dançou a marchinha com seus companheiros, Cristiano Ronaldo comemorou seu gol contra o Málaga com a coreografia virtuosa e o brasileiro Nenê da NBA, jogador do Denver Nuggets, espalhou essa gripe entre seus companheiros e no site oficial do time. Claro, gente famosa que gosta de coisa ruim tem em todo lugar, até Paulo Coelho que já recebeu citação desde Obama até Madonna.

Se você é inocente, você até acredita nesse tipo de coisa, acha que é sincero mas saiba: é somente uma tratativa pra gerar ligação e identidade, semelhança, fortificar um elo enaltecendo a cultura local. Pobres assessores que, de tanto entenderem nossa cultura, usaram a máquina de vender livros Paulo Coelho ao invés de um escritor e pensador como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Álvares de Azevedo e por aí vai. Mas, e o Michel Teló?

Todo esse reboliço de famosos fomentadores de consumo, transformou a música num hit. Se ocorreu um planejamento e muito, mas muito dinheiro, para que Nadal, Cristiano Ronaldo e Nenê soltassem na rede vídeos pra viralizar e divulgar a música: foi genial. Graças a isso, a música tornou-se a mais baixada no iTunes na Espanha, Itália, Alemanha, Portugal, Argentina, Polônia, Chile, Colômbia e Peru; já aqui no ex-quintal do Tio Sam: Someone Like You da Adele é a mais baixada. Com todo esse mercado potencial, Teló se prepara para lançar sua versão oficial em inglês de “Oh! If I catch you” durante sua turnê internacional de 12 shows em 7 países.

O Brasil então, começa a exportar, além de caipirinha: biquinis, havaianas, estilo de depilação, bossa nova, ronaldo, pelé, mulher bonita seminua e macacos assaltantes pelos Simpsons: esse produto chamado “Ai se eu te pego”. No lado bom é que enquanto houver essa turnê internacional, ele não estará aqui no Brasil cutucando nossos tímpanos; já pelo lado ruim: se você pensa em viajar, exclua todos esses destinos da sua lista se você tem amor próprio. E reze, reze muito, para que aos 40 anos ele não tenha seu próprio programa como a Xuxa.

Cat Power & Manny Pacquiao - Um novo álbum está por vir

Chan Marshall é uma das poucas artistas que sempre me chamaram a atenção, não apenas pela beleza física e voz bastante marcante, mas principalmente pela postura e comportamento. Dona de uma capacidade e sentimento incríveis expostos no The Greatest e no Jukebox que de meros covers conseguiu elevar suas versões para o patamar de homenagem.

No mês de dezembro, vários portais de música alarmaram sobre o novo trabalho que Chan tem desenvolvido e que, com certeza, inundará ouvidos ao redor do globo com sons de primeira qualidade. No último dia 24, foi lançada uma música com o tema King Rides By de 1996 do álbum What Would the Community Think. O vídeo aborda uma sessão de treinos do boxeador filipino, o campeão Manny Pacquiao; seu parceiro nessa empreitada.

Em seu site oficial é possível baixar a versão em mp3 de 320 kbps através da modesta quantia (mínima) de US$0.99 dólares que serão doados para instituições de caridade como Festival of Children Foundation e Ali Forney Center.

Claro, não podemos ser cretinos ao ponto de imaginar que a boa moça foi tocada pelo espírito natalino e resolveu fazer um lançamento de sua música sob o mote de ajudar justamente nessa data e por acaso; e apenas isso. Caso pense assim, esse espírito é realmente contagioso: The Kills libera canção natalina. Também não podemos ser funestos e bater o pé nessa estratégia de marketing mobilizada pelo interesse do consumidor em geral calcada na responsabilidade social. Veja bem, Bono Vox toca tanto essa tecla que já virou até um chato de kichute; Madonna, tentando parecer a nova Jolie, já até importou uma criança ao estilo muamba do paraguai e aparecer como boa santa (detalhe é que nas fotos publicadas durante esse momento, ela sempre esteve vestindo roupas da marca Ed Hardy, parceira de sua grife de roupas).

Estratégias de venda, divulgação e mídia espontânea a parte: que temos que salientar sua qualidade musical e a bela composição visual do treino de Pacquiao. Num momento em que só se fala em Adele isso, Adele aquilo, Amy já se foi e outras erdas quaisquer, ainda surgem boas expectativas como o TGTB e esse próximo álbum da Marshall que caminham para um rumo certo: música de qualidade.

The Good The Bad: do damasco ao queijo brie

Foto original de AltSounds.com

Encontrar novas bandas para ouvir ultimamente tem ficado cada vez mais difícil. A cada momento surgem novas vertentes, novos espectros e experimentos, novos pirulitos da ciência. A evolução tecnológica e comunicacional nos potencializa com novas experiências, acesso e acasos sonoros e visuais. Claro, a grande parte das bandas que surgem, aparecem apenas com o sonoro ruim e o visual podre, meros playmobils no fun querendo ser peças de lego; massa de manobra de gravadoras que percebem a demanda e correm pra lançar o próximo Pe Lanza, Lú, Cheetos e outras erdas quaisquer.

Em determinado momento surgem bandas que contém as duas figuras, um double face holandês. Momento raro na nossa realidade aonde dá mais trabalho filtrar a quantidade de lixo do que pra se deliciar degustando algo que importe. Eis aqui uma das que fazem efeito à causa: The Good The Bad (TGTB). E digo mais, não sou apenas eu quem vos digo, Wayne Kramer (MC5) kramou: “A melhor banda do SXSW 2010 disparado”.

Trio dinamarquês de new surf e flamenco à la pata de elefante em seu duelo final, surgido em 2009 e formatado em: Adam Olsson na guitarra principal, Johan Lei Gellett na bateria e Manoj Ramdas na guitarra barítona, formam o grupo responsável pelo novo rubberneckin’, babyRitmos eletrizantes, com punch e malemolência capazes de fazer você ir pro céu, além de todo o trabalho visual que o TGTB se chicleta. Para entender o que digo, basta ver o clipe de 030, dirigido por Jeppe Kolstrup:

Uma grande curiosidade em seu trabalho é a utilização de números como nomes para suas músicas. Sendo assim, o nome do segundo álbum: “From 018 to 033”, é melhor compreendido. Sem um vocalista a frente de seu baterista, Olssom dispara: “nós usamos a música, então não precisamos de alguém dizendo Eu te amo”.

O novo álbum já está disponível na própria webstore dos caras por £15. Enquanto isso:

  • você pode conhecer mais da banda fazendo download das músicas gratuitas disponibilizadas por eles no site oficial (incluindo 030) e wallpapers;
  • esperar sair o novo clipe dos caras que sempre tem um trabalho impecável e que estava prometido para começo de dezembro mas, até o momento, só liberaram o teaser.

João Gilberto e outras erdas quaisquer

http://m.i.uol.com.br/musica/2010/03/15/joao-gilberto-se-apresenta-no-teatro-municipal-do-rio-de-janeiro-24082008-1268664043652_615x300.jpg

João Gilberto, amado mestre, grande músico brasileiro. Fundador do samba sessions, subgênero derivado do samba com forte influência do bebop e cool jazz, comumente chamado posteriormente de Bossa Nova. Este grande fruto da genialidade de grandes nomes como Nara Leão, Vinícius “Poetinha” de Moraes, Antonio Carlos “Maestro” Jobim, Baden Powell e o nosso amado mestre: João Gilberto.

Nascido no final da década de 50, ganhou luz esse que seria um dos movimentos mais influentes da história da música popular brasileira. Oriundo das zonas de classe média da zona sul da Cidade Maravilhosa, começou num meio privilegiado entre universitários e rodas de personas culturalizadas. Em meados da década de 60 o movimento sofreu uma cisão ideológica potencializada por nomes como Edu Lobo e Marcos Valle, Dorival Caymmi e pelo Centro de Cultura Popular da UNE (União Nacional dos Estudantes). A partir daí, houve uma aproximação do fruto querido da música popular brasileira com uma visão popular e nacionalista, criticando sua influência jazzística norte americana a fim de aproximá-lo de compositores de morro como Cartola, Zé Ketti e Nelson Cavaquinho. Foi justamente nessa corrente que surgiu uma das melhores obras musicais da nossa cultura: “Os Afro-sambas (1966)” de Chico Buarque e Baden Powell.

Em 1965, em decorrência dessa forte corrente, a bossa nova teve seu fim transformando-se no que chamamos hoje de Mpb, que durou até o início da década de 80 quando surgiram as bandas de roquenrou pop renovadas como Blitz, 14 Bis, Barão Vermelho e Kid Abelha e os abóboras selvagens. O grande marco foi Elis Regina cantando Arrastão de Vinícius de Moraes e Edu Lobo no I Festival de Música Popular Brasileira, neste mesmo ano.

A Mpb nasceu então como uma segunda corrente da Bossa Nova, unindo sofisticação musical com fidelidade à música de raiz brasileira. Apoiada com o Golpe de 64, transformou-se numa grande frente cultural contra o regime militar; morfou em símbolo contra o regime estampando bandeiras de luta.

Em 2011, comemorando os 80 anos do nosso amado mestre com uma turnê que passaria por algumas regiões do país, somos bombardeados com preços abusivos e exorbitantes, irreais dentro da realidade do país em que o humor de cequecês tem fundamento. Em São Paulo os valores ficam entre R$500 e R$1000 e, os mais caros, entre R$600 e R$1400 no Rio de Janeiro e Brasília.

Hoje foi veiculado que a turnê foi cancelada, entre boatos de problemas de saúde e outros bla bla blás, o fato é que o valor foi abusivo e isso afastou muita gente. É o mesmo caso do show do Bob Dylan no Brasil em 2008 aonde o ingresso mais barato era de R$250 pra ficar atrás do pilar no fundo do salão de dentro do banheiro num box sem papel higiênico com o vaso sanitário entupido.

A falta de respeito e consideração com o povo brasileiro é tremenda, principalmente em se tratar de um ícone, papa de um movimento popular e genuinamente brasileiro numa época em que já “não há beleza, só tristeza e a melancolica que não sai de mim, não sai de mim, não sai”.

João Gilberto, se tinha a intenção de dar um presente para a nação com mais uma turnê especial, deveria fazê-lo com um valor condizente com a realidade do país, lugares não faltam, Sescs existem; quiçá em lugares públicos e de graça para a população, não apenas por respeito à toda a história do que ajudou a criar, como também em consideração e estima à geração atual que precisa subviver entre Maria Gadú, Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Luan Santana e todos os demais ejos, cores, funks e outras erdas quaisquer.